sexta-feira, 28 de junho de 2013

GIRA MUNDO

     Às vezes é preciso começar de novo. Mas para mim, não há nada de mau nisso. É como se dizer que o mundo dá voltas e para sempre no mesmo lugar, mas um passo à frente. Começar de novo, renascer, ressurgir é assim. Cada vez que uma fase se encerra, outra começa, e a gente traz consigo um passo a frente, uma experiência a mais, um conhecimento importante que vai usar agora, mas que não o tinha na volta anterior do mundo.
     Não me pergunte quantas vezes iniciei uma história, um projeto, uma ideia e parei. Parei no momento que achei certo ou conveniente, ou por um freio ou curva do destino. Mas também parei por deixar passar despercebido a importância daquilo ao olhar para o outro lado da rua. Se eu passar a vida me arrependendo do que eu abandonei ou parei, não sigo em frente. Se pensar em "se isso", "se aquilo" vou perder tempo demais num novo recomeço que está diante de mim.
     Posso me remeter à angustia, de Sartre. Eu realmente tenho a necessidade de me lançar no mundo, num projetar rumo a construção do meu ser. E saindo de Sartre para o cantor Chorão, "cada escolha, uma renúncia".  Claro, muitas escolhas, muitas renuncias, porém, viver muitas renúncias é ignorar o poder de escolha.  Entre me apegar às renúncias, e aceitar o sofrimento da liberdade, eu prefiro me apegar a este.
     Claro, não deixo de reconhecer jamais, embora minha percepção seja tardia, as mágoas, pessoas e coisas que preciso deixar pelo caminho. Mágoas muitas vezes geradas pelas expectativas geradas sobre mim. Mas acabo por não sofrer com essas situações, mais do que é normal. Em minha perspectiva, não posso deixar a minha felicidade a critério ou escolha de outro ser ou do destino ou da vida. Assim como não posso culpar a ninguém pela minha infelicidade. Acreditando nisso, não aceito que a causa do sofrimento de alguém por eu não superar suas expectativas ou partir, seja eu. Isso me exime bastante da culpa. Não é demagogia, assim como eu aceito a angústia de minhas escolhas como fruto de meus atos e escolhas e ações, é preciso que cada um aceite que escolheu transferir a tal felicidade para o outro e não a si mesmo.
     Tudo isso para dizer que compartilhar a felicidade é essencial, e lindo e contagiante, mas ninguém jamais poderá ser responsabilizado por si só em sua alegria ou sofrimento, mas apenas nós mesmos. Que escolhemos o nosso caminho e quem estará ou não nele.  É claro, que poucos de nossos movimentos são friamente calculados, como dizia meu amado Chapolin colorado. Somos (e precisamos ser) espontâneos e impulsivos. E além de tudo, assumir nossas escolhas, sendo seus resultados bons ou ruins. Todos temos o direito de viver algo que não se planejou. É fato que todos passaremos por isso, mesmo em desarmonia com aqueles que estão ao nosso redor.   
     E assim gira o mundo, assim ele dá voltas, e para sempre no mesmo lugar, mas um passo a frente (voltando exatamente ao primeiro parágrafo).





quinta-feira, 13 de junho de 2013

Delírio da Tarde

Ao pensar em seu sorriso
suspiro, e  é  preciso
abrir os meus olhos
pra evitar o vício
de te escrever
de te ouvir
de te ler...

Ao lembrar seu entusiasmo
me concentro no tempo,
de  um relógio  mudo
a aplacar a saudade
a falta de coragem
a ansiedade
a vaidade
o amor...

Ao amar, e não sei essa medida,
confundo-me nas lembranças
irremediáveis e  infinitas
(e nao sei a realidade)
do que vivi com você
do que  imaginei
do que esperei
Acordada
sonhei.









segunda-feira, 10 de junho de 2013

Intenso Despertar

É realmente estranho a forma como pude, uma vez, esquecer tantas coisas importantes.
É realmente estranho como uma simples fotografia, guardada, escondida de minhas lembranças pode, de repente, trazer à tona vários sentimentos explícitos ali, e que na timidez ou cautela foram guardados, escondidos, sob um discurso de preservação. 
Mas que tolice a minha!  Não se esconde nada do reflexo, emitido por nossos sentimentos e fixados, nítidos em uma fotografia...
Uma vez ouvi que a felicidade só é real quando é compartilhada. E como um estalo, um fiat, encontrei em meu baú de memórias, um tempo em que eu a compartilhei. 
Intensamente, com desvario, com entusiasmo.  
Houve alguém com quem pude, durante anos, expressar minhas idéias, indignações, sorrisos (enormes), me divertir e divergir à vontade.   
É realmente estranho ( e repetirei isso várias vezes) a forma como, em uma de minhas jornadas de pássaro, desejando, mas fugindo da estranheza, me afastei desse compartilhamento. Naquela época, a cautela ou timidez deixaram as coisas bem tensas... e fugi.
Eu geralmente fujo. Saio voando por aí, me perco entre minhas idéias aladas, de meu mundo particular.
Mundo estranho.
Mundo teatral. Onde as cenas se convergem e divergem para uma moral cujas pessoas podem levar consigo uma interpretação diferente, única, ligada à sua história de vida. À sua leitura de vida.
Frente a dramaturgia que venho lendo desde ontem, trago agora comigo a interpretação de que é um doce deleite ter estranheza. É delicioso se surpreender com o que foi guardado e protegido durante anos pela memória, pelo coração e pelo desejo.
E surpreendida pelo que guardamos, sua lembrança de mim me fez hoje acordar e, mesmo depois de tantos anos -  me dói muito dizer - você não me conhece tanto assim.  Porém talvez, só talvez, ao estar diante do sorriso   transparecido na fotografia antiga, você não sinta mais o que viu outrora. Mas talvez,  só talvez, diante do estranhamento de agora, deseje revelar novas fotografias. 
E isso me mantém acordada. À espreita. A estranhar. A sorrir diante desse estranhamento. 
Doce estranhamento.
Intenso despertar.