De tudo que se podia lembrar, o homem via apenas um sorriso. Lábios doces e dentes brancos, grandes, cercados de curvas de um rosto amigo. Mas não sabia o nome daquele sorriso. Apenas sentia o ardor da distância com que ele aparecia em seus sonhos, durante a longa viagem no ultimo vagão do trem.
Diziam algumas pessoas que este homem ali passava todos os dias, olhando para a mesma direção, porém sem parecer enxergar ninguém. Assim o fez durante todos os dias, por cinco anos seguidos. Vestindo sempre o mesmo casaco, o mesmo chapéu e os velhos e estranhos sapatos azuis.
"Que tipo de gente usa sapatos azuis todos os dias?" disse-me uma senhora meio ruiva, meio grisalha, que, sentada no bar onde bebia duas doses de conhaque todos os dias ímpares. "É vantagem, entende?" disse-me ela com um sorriso triste preso na lateral esquerda dos lábios).
Quando estávamos ali, ela suspirando pelo conhaque e eu observando o canto do seu sorriso triste, o vimos. Hoje mais agitado, com o andar mais alongado, com pressa. E parecendo cansar, encostou-se.
Então o homem calado e a sombra de uma árvore desfolhada disse ao transeunte:
- Ei, sabe que horas são?
E a criança respondeu enquanto corria:
- Não sei olhar o relógio, Senhor! Não sei do tempo e nem das horas.
Então o homem sorriu alegremente e disse, como num salto de esperança:
- Você está certo, menino! Não preciso saber que horas são e nem do tempo. O tempo que ainda tenho ou o tempo que perdi de nada importam. Que tempo vivemos hoje? Quanto tempo se passou?
O menino não prestou atenção no homem, e o homem na verdade não falava para o menino, mas consigo. E depois de alguns instantes de silencio, disse sorrindo:
- Amanhã vou estrear o meu sapato azul.
Ana Paula Carvalho
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