domingo, 21 de fevereiro de 2010

O Homem só

Houve, um dia, um homem que maltratou a si mesmo para alcançar um sonho.
Houve, um dia, um homem que se afastou dos olhares, dos abraços, dos homens.
Este homem, um dia achou que a sua felicidade era a coisa mais importante do mundo.
Esse homem lutou anos e anos pelo que acreditava.
Lutou sozinho.
Lutou amargo.
Lutou cansado.
Mas não importava tudo isso, porque ele tinha um sonho...
De repende esse sonhou ele alcançou. Chegou onde queria, pôde se olhar no espelho e dizer "eu consegui!".

Então, percebeu que só desejava uma coisa naquele momento: Compartilhar com as pessoas que amava, o que havia alcançado, após tantas noites de solidão, tantos dias solitários ao lado de pessoas que nem sabiam quem ele era de verdade, que mal o conheciam, que nao o viam.

Então ele pensou na sua velha agenda, que devia estar empoeirada, numa caixa antiga e pensou: Agora eu vou contar pros meus amigos tudo isso!
Abriu o armário, pegou a velha caixa bonita, onde guardava as coisas que lhe importaram na vida.
Abriu a caixa.
Sentiu o cheiro dos velhos objetos e sorriu.
Pegou um pedaço de guardanapo de papel, com uma marca de batom com letras dizendo "meu amor, esse amor não morrerá" - e suspirou;
Pegou uma camiseta, assinada por varios amigos em sua festa de despedida - alguns dos quais nem se lembrava - mas vários rostos vieram a sua memória, e sentiu saudade.
Olhou um pequeno caderno, cheio de poemas seus, inacabados, piegas, hoje engraçados. MAs se lembrou dos momentos em que foram escritos. Horas de dor, de comemorações, de medo... E se lembrou de ter vivido sentimentos verdadeiros, sinceros em seu coração...
Por fim, tremeu ao ver a velha agenda de telefones. Ao abri-la, tantos nomes.. alguns estranhos, alguns realmemente especiais.
Lucas, seu grande e velho amigo, se casou; João estava na Flórida a anos; Pedro sofrera um acidente e estava paralítico; Aline ia se casar com MArcos - um otário, e Carmem, seu grande amor - ela... "ela morreu", disse a voz trêmula do outro lado. "Foi a dois meses, nós não o encontramos para contar. Ela não conseguiu reve-lo antes de partir, uma pena".
O homem então ficou mudo, desligou, gritou. Um grito seco, doído, forte, insano.
Como tantas coisas puderam acontecer sem que ele estivesse por perto? Sem que ele soubesse? Porque ele não sabia de tudo aquilo? Em que mundo ele estava? Por onde andou?
O homem, na verdade, esteve em busca da sua felicidade, dentro de si e fora do mundo e da vida das pessoas que realmente lhe importavam e para quem ele era importante.
O homem se esquecera quem era, quem valia a pena, quem sangrava seu coração, quem lhe alegrava a alma, e viveu só, lutou só e, venceu só.
Não havia ali perto ninguém com quem quisesse comemorar, ninguem para quem desejava contar das suas conquistas, ninguém para dividir suas alegrias. Então ele não pôde sentir orgulho de si mesmo, após tantos anos de luta por seu ideal, porque seu ideal agora seria compartilhar seus sonhos e felicidade, e ele não conseguiu.
Então o homem pensou "porque eu não consigo me sentir feliz com tudo que conquistei? Porque tudo pelo qual lutei não faz sentido? Porque tudo que eu fiz prioridade em minha vida fez com que eu não sinta que estou vivo?
Após a revolta, tentou entender e justificar seus motivos:
Porque queremos sempre o que não temos?
Porque a felicidade só vale quando é compartilhada?
Porque meus sonhos não eram meus sonhos e sim um desejo criado pela sociedade?
Porque eu não me conheço o suficiente para saber o que realmente vale?
Porque errei em deixar de viver o agora para viver o futuro que eu alcançaria?
Porque?

E o homem não soube responder.
E mais ainda: Ao se arrepender, teve que enfrentar, pois não há como voltar atrás e refazer suas escolhas. Escolha de ligar ou não para um amigo no aniversário, escolha de não ir a uma festa por causa da reunião no dia seguinte; escolha de deixar um amor para aceitar um trabalho em outra cidade; escolha de fazer novos amigos que frequentam o espaço onde você precisa ser reconhecido; escolha de não acampar no verão com a velha turma; escolha de não se casar por medo de se prender; escolha de ignorar tudo a sua volta pra seguir em frente...
E na frente, o que tinha lá?

O homem não pôde responder. E então não sentiu-se mais um homem.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O ALTAR DIANTE DO ESPELHO

Porque os professores são tão eleitos primeiros amores de muitas alunas pré-adolescentes? E porque ainda são tão assediados pelas jovens mais espertas?
Porque astros de bandas de rock, magrelos, estranhos e desvairados são tão assediados por homens e mulheres de todas as idades?
Porque as revistas de fofoca que flagram a vida de famosos, vendeM muito mais do que revistas científicas?
Porque nos tornamos fãs fascinados por pessoas que nem ao menos conhecemos como pessoas, mas como sex simbols?
Desde crianças, aos primeiros passos e palavras lidas, somos catequizados, evangelizados, treinados militarmente a admirar e exaltar aqueles que estão expostos em um altar (que nem ao menos têm direito de resposta ao que tanto lhe falamos aos ouvidos).
Os professores, os astros, modelos, as sete maravilhas do mundo, o padre, o pastor, o carinha mais bonito ou a garota mais fashion da Escola estão nesses altares. São traduzidos automaticamente por nosso cérebro condicionado a admirar o que está no altar, como amáveis, apaixonantes, idolatráveis. Além do fato de estarem estes todos em constante exposição diante de nossos olhos, nossa imaginação, nossa esperança e desejo de conquista.
Repare que muitas dessas pessoas estariam totalmente despercebidas se estivessem fora do palco, da telinha ou da telona, fora da sala de aula, do palco. São belezas comuns que se produzem, colocam suas batas jesuíticas em forma de casacos modernos e passam a ser observados com um olhar de cristão dedicado.
Quando pudermos descobrir, em nós, essa percepção, veremos quantos astros interessantes temos à nossa volta, em nossa vida: Um namorado seu tocando violão, sua avó trabalhando em sua incrível macarronada, sua amiga lhe ensinando que não adianta sofrer, que vai passar, que homem é igual biscoito; Você cantando com seus amigos num lual; ou alguém fazendo uma gracinha boba só para te fazer rir não precisam estar em altares para serem admirados, para nos tornarmos loucos por eles.
Não precisam estar expostos para descobrirmos o quanto somos seus fãs, o quanto são admiráveis, passíveis de compra de ingresso e fila de espera com direito a acampamento noturno e gritos cheios de lágrimas dizendo “EU TE AMO!”.
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Dedico este texto à minha eterna amiga Thaís Teixeira, a de muitas vidas, a que dividiu comigo a maior parte do meu altar.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

JANELA ABERTA

Tenho me lembrado de você.
Me perco entre lembranças.
Ouço vozes
risos
conversas de nós dois.

Como posso ouvir tantos ruídos
se não há ninguém em volta?

Imagens
Frases
Beijos
Não vão embora
Perturbam minha cabeça
Me acompanham noite adentro
sem me aquecer

Eles me tomam o calor e
deixam meu corpo como se estivesse NU
Mas meu corpo está NU.

De você.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Manifesto pela Joana Fora do Mundo

Joana não encontra o mundo fora de si mesma. Percebe coisas que não podem ser vistas ou sentidas por nós. Ela interfere em seus pensamentos e você é incapaz de conhecer os dela.
Mulher doce, mas incapaz de sentir a vida como você. Está sempre em muitos lugares ao mesmo tempo, está em toda parte e em parte qualquer. Por vezes, Joana se joga nos mares, corre pelos ventos e navega em dilúvios de areia sem perguntar a si mesma como consegue isso, como fazer outra vez, como nunca mais fazer.
Joana tem medo de si mesma porque não enxerga a maldade do mundo. Em seus pensamentos, ela é a vilã, a mocinha, a fada e a bruxa. Joana é o que quer ser e não entende a diferença de ser quem você é ou ser quem gostaria de ser, porque ela é todas elas e nenhuma delas quando, por lágrimas e gritos, suspira sem entender.
Conhecer Joana é um martírio para cada um que se aproxima dela. Pois, perto dela, somos capazes de entender perfeitamente a vida e a sociedade da qual fazemos parte. A reconhecemos, como se passasse um filme em nossas mentes, como se tivéssemos um estalo mental que clareia todos os nossos pensamentos. Mas entender a vida e a sociedade não é tudo o que queremos?
Quando estamos perto de Joana percebemos que não. Pois, ao encontrá-la em seu mundo nos deparamos diante da vida definida fora de nós mesmos, fora dos nossos valores, dos nossos desejos, do nosso "Eu", definidas por "Deus sabe quem".
Se Joana se encontrar, se ela encontrar o mundo fora dela, ela perderá toda a sensibilidade que preenche a sua alma, perderá sua essência, sua ilusão doce e criativa.
Mas olhando de longe e calmamente, sabemos que Joana não encontra o mundo fora de si mesma. Que inveja da Joana!!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Deus Salve Os Tempos Modernos


A didática de um homem é totalmente proporcional ao valor da idéia que lhe acomete o momento.
Momentos são frações de segundos ou intenções que se transformam em eras. Eras resumem tempos impiedosos entre o sagaz e o justo.
Tempos de alquimia e desejo, no entanto, não são abrandados pela cólera do ímpeto de ser honesto. Honestidade , aliás, é um adjetivo fugaz. Sim, qual a honestidade que faz com que a sua dor de saber a verdade se transforme em agradecimento sincero pela palavra doce e amiga que te dá “um pé na bunda”?
Mas falemos da modernidade absoluta de ser livre: Deus nos deu o livre arbítrio. Este, porém é a didática mais confusa desses tempos, visto que quem o criou interfere o tempo todo nas escolhas humanas. Quem nunca lhe disse “é porque não era pra ser!” ou “o que é seu tá guardado, Deus tá vendo”.
Tenho certeza que se você perguntar se essa pessoa acredita no livre arbítrio divino ela dirá que sim. “É claro!”.
Mas como pode alguém com acesso a tantas pesquisas, estudos, missas, cultos, bibliotecas, Google e TV a cabo pode não saber que ou ela escolhe acreditar no livre arbítrio e saber que se algo deu errado é porque é um idiota que errou bastante nas questões do concurso público ou até mesmo ser honesta consigo mesmo e encarar a realidade de que o outro nunca a amou de verdade e por isso a deixou ou ela aceita a vida como ela é, espera os tempos mudarem, os ventos da alquimia soprarem a seu favor e Deus salvá-la desses tempos de cólera. Tempos modernos esses.

Ai Se Eu Fosse a Bethania

Bethania não sabe perder.

Bethania é carne de pescoço
É semente de gengibre
Óleo de dendê.

Bethania não sabe perder.

Bethania arranca a dor com os dentes
Segue sempre em frente
Não pergunta por quê.

Bethania não sabe perder.

Bethania sai toda noite
Maquiagem em cima de maquiagem
Entre uísque e rock and roll
Pra abalar a deprê.

Bethania não sabe perder.

Bethania não tem pudor
Levanta a saia a doidado
E joga todo o seu carteado
Em cima de você.

E ai de quem perguntar por quê.

domingo, 5 de julho de 2009

A ERA DO ESQUILO

Sobre o filme "A Era do Gelo"
Gosto do esquilo.
Gosto do sentimento com que ele persegue a noz.
Incansavelmente.
Na verdade, ele se cansa.
Se observarmos bem ele para, respira, sente vontade de gritar, espernear, chorar , desistir, se matar, ou quem sabe passar a comer gelo - já que é isso que as circunstâncias lhe oferecem.
Mas como estamos ali para nos divertir às custas dele, não percebemos que ele lamenta, e antes que possamos perceber esse detalhe algo acontece em fração de segundos e o joga novamente atrás Daquela Noz. Ele também não sabe o que é. Se é ele quem move todo aquele gelo com a vontade que tem de comer aquele alimento - a razão dele existir - ou se a montanha de gelo se move só para fazê-lo não ter tempo de desistir. Ou então apenas para testar sua vontade, rir dele também.Eu gosto muito do esquilo.
Ele é o personagem que mais fala neste filme. O esquilo - cujo nome eu não sei - é muito sagaz.
Ele vive só, e vive porque tem fome.Tanta fome que talvez ele nem perceba o quanto está sozinho.Mas de que adiantaria ele estar rodeado de pessoas e de todas as nozes do mundo e não ter fome?
A fome?!?!?!
É A fome que nos alimenta. Que haja fome, muita fome no mundo. Pois quando saciamos a fome, o mundo para de girar.
O homem que não tem fome para o mundo.Antes não ter nada e sentir fome do que ter tudo e não ter vontade, não desejar nada do tudo que se tem.Por mais fraco que a fome possa deixar o corpo do esquilo, ela fortalece o seu ego, seu orgulho, seus sonhos e faz mais, muito mais saborosas suas conquistas.
E quando ele conquistar e matar a sua fome, desejo que ele tenha algo mais a desejar ou então
ele perderá sua força
sua graça
sua sagacidade
a sua alma desfalecerá.