quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Contra-Plano

Um novo ano
Uma nova promessa
Um novo plano:

Planejo deixar voce ir
Me dar as costas
Sumir

Mas não tenha pressa
Que essa promessa
É dolorida demais

Prometo não chorar
Nem suas roupas rasgar
Mas já não te garanto
Que não vá te arranhar
Como um gato ferido
De coração partido
Até o sol clarear

Depois dessa ultima noite
(Só mais uma)
De amor e carinho
Meu plano é
Nunca mais planejar.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Sem Rascunho

Sem ensaio
Sem balaio
Sem rumo

Sem braço
Sem Abraço
Sem mundo

Sem calor
Sem amor
Sem sumo

Sem pauta
Sem alta
Sem fundo

Sem coragem
Sem vantagem
Sem pulo

Sem chão
Sem coração
Sem tudo.



Ana sabbag

sexta-feira, 28 de junho de 2013

GIRA MUNDO

     Às vezes é preciso começar de novo. Mas para mim, não há nada de mau nisso. É como se dizer que o mundo dá voltas e para sempre no mesmo lugar, mas um passo à frente. Começar de novo, renascer, ressurgir é assim. Cada vez que uma fase se encerra, outra começa, e a gente traz consigo um passo a frente, uma experiência a mais, um conhecimento importante que vai usar agora, mas que não o tinha na volta anterior do mundo.
     Não me pergunte quantas vezes iniciei uma história, um projeto, uma ideia e parei. Parei no momento que achei certo ou conveniente, ou por um freio ou curva do destino. Mas também parei por deixar passar despercebido a importância daquilo ao olhar para o outro lado da rua. Se eu passar a vida me arrependendo do que eu abandonei ou parei, não sigo em frente. Se pensar em "se isso", "se aquilo" vou perder tempo demais num novo recomeço que está diante de mim.
     Posso me remeter à angustia, de Sartre. Eu realmente tenho a necessidade de me lançar no mundo, num projetar rumo a construção do meu ser. E saindo de Sartre para o cantor Chorão, "cada escolha, uma renúncia".  Claro, muitas escolhas, muitas renuncias, porém, viver muitas renúncias é ignorar o poder de escolha.  Entre me apegar às renúncias, e aceitar o sofrimento da liberdade, eu prefiro me apegar a este.
     Claro, não deixo de reconhecer jamais, embora minha percepção seja tardia, as mágoas, pessoas e coisas que preciso deixar pelo caminho. Mágoas muitas vezes geradas pelas expectativas geradas sobre mim. Mas acabo por não sofrer com essas situações, mais do que é normal. Em minha perspectiva, não posso deixar a minha felicidade a critério ou escolha de outro ser ou do destino ou da vida. Assim como não posso culpar a ninguém pela minha infelicidade. Acreditando nisso, não aceito que a causa do sofrimento de alguém por eu não superar suas expectativas ou partir, seja eu. Isso me exime bastante da culpa. Não é demagogia, assim como eu aceito a angústia de minhas escolhas como fruto de meus atos e escolhas e ações, é preciso que cada um aceite que escolheu transferir a tal felicidade para o outro e não a si mesmo.
     Tudo isso para dizer que compartilhar a felicidade é essencial, e lindo e contagiante, mas ninguém jamais poderá ser responsabilizado por si só em sua alegria ou sofrimento, mas apenas nós mesmos. Que escolhemos o nosso caminho e quem estará ou não nele.  É claro, que poucos de nossos movimentos são friamente calculados, como dizia meu amado Chapolin colorado. Somos (e precisamos ser) espontâneos e impulsivos. E além de tudo, assumir nossas escolhas, sendo seus resultados bons ou ruins. Todos temos o direito de viver algo que não se planejou. É fato que todos passaremos por isso, mesmo em desarmonia com aqueles que estão ao nosso redor.   
     E assim gira o mundo, assim ele dá voltas, e para sempre no mesmo lugar, mas um passo a frente (voltando exatamente ao primeiro parágrafo).





quinta-feira, 13 de junho de 2013

Delírio da Tarde

Ao pensar em seu sorriso
suspiro, e  é  preciso
abrir os meus olhos
pra evitar o vício
de te escrever
de te ouvir
de te ler...

Ao lembrar seu entusiasmo
me concentro no tempo,
de  um relógio  mudo
a aplacar a saudade
a falta de coragem
a ansiedade
a vaidade
o amor...

Ao amar, e não sei essa medida,
confundo-me nas lembranças
irremediáveis e  infinitas
(e nao sei a realidade)
do que vivi com você
do que  imaginei
do que esperei
Acordada
sonhei.









segunda-feira, 10 de junho de 2013

Intenso Despertar

É realmente estranho a forma como pude, uma vez, esquecer tantas coisas importantes.
É realmente estranho como uma simples fotografia, guardada, escondida de minhas lembranças pode, de repente, trazer à tona vários sentimentos explícitos ali, e que na timidez ou cautela foram guardados, escondidos, sob um discurso de preservação. 
Mas que tolice a minha!  Não se esconde nada do reflexo, emitido por nossos sentimentos e fixados, nítidos em uma fotografia...
Uma vez ouvi que a felicidade só é real quando é compartilhada. E como um estalo, um fiat, encontrei em meu baú de memórias, um tempo em que eu a compartilhei. 
Intensamente, com desvario, com entusiasmo.  
Houve alguém com quem pude, durante anos, expressar minhas idéias, indignações, sorrisos (enormes), me divertir e divergir à vontade.   
É realmente estranho ( e repetirei isso várias vezes) a forma como, em uma de minhas jornadas de pássaro, desejando, mas fugindo da estranheza, me afastei desse compartilhamento. Naquela época, a cautela ou timidez deixaram as coisas bem tensas... e fugi.
Eu geralmente fujo. Saio voando por aí, me perco entre minhas idéias aladas, de meu mundo particular.
Mundo estranho.
Mundo teatral. Onde as cenas se convergem e divergem para uma moral cujas pessoas podem levar consigo uma interpretação diferente, única, ligada à sua história de vida. À sua leitura de vida.
Frente a dramaturgia que venho lendo desde ontem, trago agora comigo a interpretação de que é um doce deleite ter estranheza. É delicioso se surpreender com o que foi guardado e protegido durante anos pela memória, pelo coração e pelo desejo.
E surpreendida pelo que guardamos, sua lembrança de mim me fez hoje acordar e, mesmo depois de tantos anos -  me dói muito dizer - você não me conhece tanto assim.  Porém talvez, só talvez, ao estar diante do sorriso   transparecido na fotografia antiga, você não sinta mais o que viu outrora. Mas talvez,  só talvez, diante do estranhamento de agora, deseje revelar novas fotografias. 
E isso me mantém acordada. À espreita. A estranhar. A sorrir diante desse estranhamento. 
Doce estranhamento.
Intenso despertar.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Uma vez dormi por cinco anos

Houve um tempo em que os sonhos calavam alto diante da dor e o olhar do homem sentia a angústia de cem anos de ilusão e solidão. A guerra não tinha mais fim e as feridas não saravam jamais. O inverno eterno se estendia desde 83 e as folhas caiam como as de ontem, e sempre.
De tudo que se podia lembrar, o homem via apenas um sorriso. Lábios doces e dentes brancos, grandes, cercados de curvas de um rosto amigo. Mas não sabia o nome daquele sorriso. Apenas sentia o ardor da distância com que ele aparecia em seus sonhos, durante a longa viagem no ultimo vagão do trem.
Diziam algumas pessoas que este homem ali passava todos os dias, olhando para a mesma direção, porém sem parecer enxergar ninguém. Assim o fez durante todos os dias, por cinco anos seguidos. Vestindo sempre o mesmo casaco, o mesmo chapéu e os velhos e estranhos sapatos azuis.
"Que tipo de gente usa sapatos azuis todos os dias?" disse-me uma senhora meio ruiva, meio grisalha, que, sentada no bar onde bebia duas doses de conhaque todos os dias ímpares. "É vantagem, entende?" disse-me ela com um sorriso triste preso na lateral esquerda dos lábios).
Quando estávamos ali, ela suspirando pelo conhaque e eu observando o canto do seu sorriso triste, o vimos. Hoje mais agitado, com o andar mais alongado, com pressa. E parecendo cansar, encostou-se.
Então o homem calado e a sombra de uma árvore desfolhada disse ao transeunte:
- Ei, sabe que horas são?
E a criança respondeu enquanto corria:
- Não sei olhar o relógio, Senhor! Não sei do tempo e nem das horas.
Então o homem sorriu alegremente e disse, como num salto de esperança:
- Você está certo, menino! Não preciso saber que horas são e nem do tempo. O tempo que ainda tenho ou o tempo que perdi de nada importam. Que tempo vivemos hoje? Quanto tempo se passou?
O menino não prestou atenção no homem, e o homem na verdade não falava para o menino, mas consigo. E depois de alguns instantes de silencio, disse sorrindo:
- Amanhã vou estrear o meu sapato azul.

Ana Paula Carvalho

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O Homem só

Houve, um dia, um homem que maltratou a si mesmo para alcançar um sonho.
Houve, um dia, um homem que se afastou dos olhares, dos abraços, dos homens.
Este homem, um dia achou que a sua felicidade era a coisa mais importante do mundo.
Esse homem lutou anos e anos pelo que acreditava.
Lutou sozinho.
Lutou amargo.
Lutou cansado.
Mas não importava tudo isso, porque ele tinha um sonho...
De repende esse sonhou ele alcançou. Chegou onde queria, pôde se olhar no espelho e dizer "eu consegui!".

Então, percebeu que só desejava uma coisa naquele momento: Compartilhar com as pessoas que amava, o que havia alcançado, após tantas noites de solidão, tantos dias solitários ao lado de pessoas que nem sabiam quem ele era de verdade, que mal o conheciam, que nao o viam.

Então ele pensou na sua velha agenda, que devia estar empoeirada, numa caixa antiga e pensou: Agora eu vou contar pros meus amigos tudo isso!
Abriu o armário, pegou a velha caixa bonita, onde guardava as coisas que lhe importaram na vida.
Abriu a caixa.
Sentiu o cheiro dos velhos objetos e sorriu.
Pegou um pedaço de guardanapo de papel, com uma marca de batom com letras dizendo "meu amor, esse amor não morrerá" - e suspirou;
Pegou uma camiseta, assinada por varios amigos em sua festa de despedida - alguns dos quais nem se lembrava - mas vários rostos vieram a sua memória, e sentiu saudade.
Olhou um pequeno caderno, cheio de poemas seus, inacabados, piegas, hoje engraçados. MAs se lembrou dos momentos em que foram escritos. Horas de dor, de comemorações, de medo... E se lembrou de ter vivido sentimentos verdadeiros, sinceros em seu coração...
Por fim, tremeu ao ver a velha agenda de telefones. Ao abri-la, tantos nomes.. alguns estranhos, alguns realmemente especiais.
Lucas, seu grande e velho amigo, se casou; João estava na Flórida a anos; Pedro sofrera um acidente e estava paralítico; Aline ia se casar com MArcos - um otário, e Carmem, seu grande amor - ela... "ela morreu", disse a voz trêmula do outro lado. "Foi a dois meses, nós não o encontramos para contar. Ela não conseguiu reve-lo antes de partir, uma pena".
O homem então ficou mudo, desligou, gritou. Um grito seco, doído, forte, insano.
Como tantas coisas puderam acontecer sem que ele estivesse por perto? Sem que ele soubesse? Porque ele não sabia de tudo aquilo? Em que mundo ele estava? Por onde andou?
O homem, na verdade, esteve em busca da sua felicidade, dentro de si e fora do mundo e da vida das pessoas que realmente lhe importavam e para quem ele era importante.
O homem se esquecera quem era, quem valia a pena, quem sangrava seu coração, quem lhe alegrava a alma, e viveu só, lutou só e, venceu só.
Não havia ali perto ninguém com quem quisesse comemorar, ninguem para quem desejava contar das suas conquistas, ninguém para dividir suas alegrias. Então ele não pôde sentir orgulho de si mesmo, após tantos anos de luta por seu ideal, porque seu ideal agora seria compartilhar seus sonhos e felicidade, e ele não conseguiu.
Então o homem pensou "porque eu não consigo me sentir feliz com tudo que conquistei? Porque tudo pelo qual lutei não faz sentido? Porque tudo que eu fiz prioridade em minha vida fez com que eu não sinta que estou vivo?
Após a revolta, tentou entender e justificar seus motivos:
Porque queremos sempre o que não temos?
Porque a felicidade só vale quando é compartilhada?
Porque meus sonhos não eram meus sonhos e sim um desejo criado pela sociedade?
Porque eu não me conheço o suficiente para saber o que realmente vale?
Porque errei em deixar de viver o agora para viver o futuro que eu alcançaria?
Porque?

E o homem não soube responder.
E mais ainda: Ao se arrepender, teve que enfrentar, pois não há como voltar atrás e refazer suas escolhas. Escolha de ligar ou não para um amigo no aniversário, escolha de não ir a uma festa por causa da reunião no dia seguinte; escolha de deixar um amor para aceitar um trabalho em outra cidade; escolha de fazer novos amigos que frequentam o espaço onde você precisa ser reconhecido; escolha de não acampar no verão com a velha turma; escolha de não se casar por medo de se prender; escolha de ignorar tudo a sua volta pra seguir em frente...
E na frente, o que tinha lá?

O homem não pôde responder. E então não sentiu-se mais um homem.