Houve, um dia, um homem que maltratou a si mesmo para alcançar um sonho.
Houve, um dia, um homem que se afastou dos olhares, dos abraços, dos homens.
Este homem, um dia achou que a sua felicidade era a coisa mais importante do mundo.
Esse homem lutou anos e anos pelo que acreditava.
Lutou sozinho.
Lutou amargo.
Lutou cansado.
Mas não importava tudo isso, porque ele tinha um sonho...
De repende esse sonhou ele alcançou. Chegou onde queria, pôde se olhar no espelho e dizer "eu consegui!".
Então, percebeu que só desejava uma coisa naquele momento: Compartilhar com as pessoas que amava, o que havia alcançado, após tantas noites de solidão, tantos dias solitários ao lado de pessoas que nem sabiam quem ele era de verdade, que mal o conheciam, que nao o viam.
Então ele pensou na sua velha agenda, que devia estar empoeirada, numa caixa antiga e pensou: Agora eu vou contar pros meus amigos tudo isso!
Abriu o armário, pegou a velha caixa bonita, onde guardava as coisas que lhe importaram na vida.
Abriu a caixa.
Sentiu o cheiro dos velhos objetos e sorriu.
Pegou um pedaço de guardanapo de papel, com uma marca de batom com letras dizendo "meu amor, esse amor não morrerá" - e suspirou;
Pegou uma camiseta, assinada por varios amigos em sua festa de despedida - alguns dos quais nem se lembrava - mas vários rostos vieram a sua memória, e sentiu saudade.
Olhou um pequeno caderno, cheio de poemas seus, inacabados, piegas, hoje engraçados. MAs se lembrou dos momentos em que foram escritos. Horas de dor, de comemorações, de medo... E se lembrou de ter vivido sentimentos verdadeiros, sinceros em seu coração...
Por fim, tremeu ao ver a velha agenda de telefones. Ao abri-la, tantos nomes.. alguns estranhos, alguns realmemente especiais.
Lucas, seu grande e velho amigo, se casou; João estava na Flórida a anos; Pedro sofrera um acidente e estava paralítico; Aline ia se casar com MArcos - um otário, e Carmem, seu grande amor - ela... "ela morreu", disse a voz trêmula do outro lado. "Foi a dois meses, nós não o encontramos para contar. Ela não conseguiu reve-lo antes de partir, uma pena".
O homem então ficou mudo, desligou, gritou. Um grito seco, doído, forte, insano.
Como tantas coisas puderam acontecer sem que ele estivesse por perto? Sem que ele soubesse? Porque ele não sabia de tudo aquilo? Em que mundo ele estava? Por onde andou?
O homem, na verdade, esteve em busca da sua felicidade, dentro de si e fora do mundo e da vida das pessoas que realmente lhe importavam e para quem ele era importante.
O homem se esquecera quem era, quem valia a pena, quem sangrava seu coração, quem lhe alegrava a alma, e viveu só, lutou só e, venceu só.
Não havia ali perto ninguém com quem quisesse comemorar, ninguem para quem desejava contar das suas conquistas, ninguém para dividir suas alegrias. Então ele não pôde sentir orgulho de si mesmo, após tantos anos de luta por seu ideal, porque seu ideal agora seria compartilhar seus sonhos e felicidade, e ele não conseguiu.
Então o homem pensou "porque eu não consigo me sentir feliz com tudo que conquistei? Porque tudo pelo qual lutei não faz sentido? Porque tudo que eu fiz prioridade em minha vida fez com que eu não sinta que estou vivo?
Após a revolta, tentou entender e justificar seus motivos:
Porque queremos sempre o que não temos?
Porque a felicidade só vale quando é compartilhada?
Porque meus sonhos não eram meus sonhos e sim um desejo criado pela sociedade?
Porque eu não me conheço o suficiente para saber o que realmente vale?
Porque errei em deixar de viver o agora para viver o futuro que eu alcançaria?
Porque?
E o homem não soube responder.
E mais ainda: Ao se arrepender, teve que enfrentar, pois não há como voltar atrás e refazer suas escolhas. Escolha de ligar ou não para um amigo no aniversário, escolha de não ir a uma festa por causa da reunião no dia seguinte; escolha de deixar um amor para aceitar um trabalho em outra cidade; escolha de fazer novos amigos que frequentam o espaço onde você precisa ser reconhecido; escolha de não acampar no verão com a velha turma; escolha de não se casar por medo de se prender; escolha de ignorar tudo a sua volta pra seguir em frente...
E na frente, o que tinha lá?
O homem não pôde responder. E então não sentiu-se mais um homem.