quinta-feira, 13 de junho de 2013

Delírio da Tarde

Ao pensar em seu sorriso
suspiro, e  é  preciso
abrir os meus olhos
pra evitar o vício
de te escrever
de te ouvir
de te ler...

Ao lembrar seu entusiasmo
me concentro no tempo,
de  um relógio  mudo
a aplacar a saudade
a falta de coragem
a ansiedade
a vaidade
o amor...

Ao amar, e não sei essa medida,
confundo-me nas lembranças
irremediáveis e  infinitas
(e nao sei a realidade)
do que vivi com você
do que  imaginei
do que esperei
Acordada
sonhei.









segunda-feira, 10 de junho de 2013

Intenso Despertar

É realmente estranho a forma como pude, uma vez, esquecer tantas coisas importantes.
É realmente estranho como uma simples fotografia, guardada, escondida de minhas lembranças pode, de repente, trazer à tona vários sentimentos explícitos ali, e que na timidez ou cautela foram guardados, escondidos, sob um discurso de preservação. 
Mas que tolice a minha!  Não se esconde nada do reflexo, emitido por nossos sentimentos e fixados, nítidos em uma fotografia...
Uma vez ouvi que a felicidade só é real quando é compartilhada. E como um estalo, um fiat, encontrei em meu baú de memórias, um tempo em que eu a compartilhei. 
Intensamente, com desvario, com entusiasmo.  
Houve alguém com quem pude, durante anos, expressar minhas idéias, indignações, sorrisos (enormes), me divertir e divergir à vontade.   
É realmente estranho ( e repetirei isso várias vezes) a forma como, em uma de minhas jornadas de pássaro, desejando, mas fugindo da estranheza, me afastei desse compartilhamento. Naquela época, a cautela ou timidez deixaram as coisas bem tensas... e fugi.
Eu geralmente fujo. Saio voando por aí, me perco entre minhas idéias aladas, de meu mundo particular.
Mundo estranho.
Mundo teatral. Onde as cenas se convergem e divergem para uma moral cujas pessoas podem levar consigo uma interpretação diferente, única, ligada à sua história de vida. À sua leitura de vida.
Frente a dramaturgia que venho lendo desde ontem, trago agora comigo a interpretação de que é um doce deleite ter estranheza. É delicioso se surpreender com o que foi guardado e protegido durante anos pela memória, pelo coração e pelo desejo.
E surpreendida pelo que guardamos, sua lembrança de mim me fez hoje acordar e, mesmo depois de tantos anos -  me dói muito dizer - você não me conhece tanto assim.  Porém talvez, só talvez, ao estar diante do sorriso   transparecido na fotografia antiga, você não sinta mais o que viu outrora. Mas talvez,  só talvez, diante do estranhamento de agora, deseje revelar novas fotografias. 
E isso me mantém acordada. À espreita. A estranhar. A sorrir diante desse estranhamento. 
Doce estranhamento.
Intenso despertar.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Uma vez dormi por cinco anos

Houve um tempo em que os sonhos calavam alto diante da dor e o olhar do homem sentia a angústia de cem anos de ilusão e solidão. A guerra não tinha mais fim e as feridas não saravam jamais. O inverno eterno se estendia desde 83 e as folhas caiam como as de ontem, e sempre.
De tudo que se podia lembrar, o homem via apenas um sorriso. Lábios doces e dentes brancos, grandes, cercados de curvas de um rosto amigo. Mas não sabia o nome daquele sorriso. Apenas sentia o ardor da distância com que ele aparecia em seus sonhos, durante a longa viagem no ultimo vagão do trem.
Diziam algumas pessoas que este homem ali passava todos os dias, olhando para a mesma direção, porém sem parecer enxergar ninguém. Assim o fez durante todos os dias, por cinco anos seguidos. Vestindo sempre o mesmo casaco, o mesmo chapéu e os velhos e estranhos sapatos azuis.
"Que tipo de gente usa sapatos azuis todos os dias?" disse-me uma senhora meio ruiva, meio grisalha, que, sentada no bar onde bebia duas doses de conhaque todos os dias ímpares. "É vantagem, entende?" disse-me ela com um sorriso triste preso na lateral esquerda dos lábios).
Quando estávamos ali, ela suspirando pelo conhaque e eu observando o canto do seu sorriso triste, o vimos. Hoje mais agitado, com o andar mais alongado, com pressa. E parecendo cansar, encostou-se.
Então o homem calado e a sombra de uma árvore desfolhada disse ao transeunte:
- Ei, sabe que horas são?
E a criança respondeu enquanto corria:
- Não sei olhar o relógio, Senhor! Não sei do tempo e nem das horas.
Então o homem sorriu alegremente e disse, como num salto de esperança:
- Você está certo, menino! Não preciso saber que horas são e nem do tempo. O tempo que ainda tenho ou o tempo que perdi de nada importam. Que tempo vivemos hoje? Quanto tempo se passou?
O menino não prestou atenção no homem, e o homem na verdade não falava para o menino, mas consigo. E depois de alguns instantes de silencio, disse sorrindo:
- Amanhã vou estrear o meu sapato azul.

Ana Paula Carvalho

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O Homem só

Houve, um dia, um homem que maltratou a si mesmo para alcançar um sonho.
Houve, um dia, um homem que se afastou dos olhares, dos abraços, dos homens.
Este homem, um dia achou que a sua felicidade era a coisa mais importante do mundo.
Esse homem lutou anos e anos pelo que acreditava.
Lutou sozinho.
Lutou amargo.
Lutou cansado.
Mas não importava tudo isso, porque ele tinha um sonho...
De repende esse sonhou ele alcançou. Chegou onde queria, pôde se olhar no espelho e dizer "eu consegui!".

Então, percebeu que só desejava uma coisa naquele momento: Compartilhar com as pessoas que amava, o que havia alcançado, após tantas noites de solidão, tantos dias solitários ao lado de pessoas que nem sabiam quem ele era de verdade, que mal o conheciam, que nao o viam.

Então ele pensou na sua velha agenda, que devia estar empoeirada, numa caixa antiga e pensou: Agora eu vou contar pros meus amigos tudo isso!
Abriu o armário, pegou a velha caixa bonita, onde guardava as coisas que lhe importaram na vida.
Abriu a caixa.
Sentiu o cheiro dos velhos objetos e sorriu.
Pegou um pedaço de guardanapo de papel, com uma marca de batom com letras dizendo "meu amor, esse amor não morrerá" - e suspirou;
Pegou uma camiseta, assinada por varios amigos em sua festa de despedida - alguns dos quais nem se lembrava - mas vários rostos vieram a sua memória, e sentiu saudade.
Olhou um pequeno caderno, cheio de poemas seus, inacabados, piegas, hoje engraçados. MAs se lembrou dos momentos em que foram escritos. Horas de dor, de comemorações, de medo... E se lembrou de ter vivido sentimentos verdadeiros, sinceros em seu coração...
Por fim, tremeu ao ver a velha agenda de telefones. Ao abri-la, tantos nomes.. alguns estranhos, alguns realmemente especiais.
Lucas, seu grande e velho amigo, se casou; João estava na Flórida a anos; Pedro sofrera um acidente e estava paralítico; Aline ia se casar com MArcos - um otário, e Carmem, seu grande amor - ela... "ela morreu", disse a voz trêmula do outro lado. "Foi a dois meses, nós não o encontramos para contar. Ela não conseguiu reve-lo antes de partir, uma pena".
O homem então ficou mudo, desligou, gritou. Um grito seco, doído, forte, insano.
Como tantas coisas puderam acontecer sem que ele estivesse por perto? Sem que ele soubesse? Porque ele não sabia de tudo aquilo? Em que mundo ele estava? Por onde andou?
O homem, na verdade, esteve em busca da sua felicidade, dentro de si e fora do mundo e da vida das pessoas que realmente lhe importavam e para quem ele era importante.
O homem se esquecera quem era, quem valia a pena, quem sangrava seu coração, quem lhe alegrava a alma, e viveu só, lutou só e, venceu só.
Não havia ali perto ninguém com quem quisesse comemorar, ninguem para quem desejava contar das suas conquistas, ninguém para dividir suas alegrias. Então ele não pôde sentir orgulho de si mesmo, após tantos anos de luta por seu ideal, porque seu ideal agora seria compartilhar seus sonhos e felicidade, e ele não conseguiu.
Então o homem pensou "porque eu não consigo me sentir feliz com tudo que conquistei? Porque tudo pelo qual lutei não faz sentido? Porque tudo que eu fiz prioridade em minha vida fez com que eu não sinta que estou vivo?
Após a revolta, tentou entender e justificar seus motivos:
Porque queremos sempre o que não temos?
Porque a felicidade só vale quando é compartilhada?
Porque meus sonhos não eram meus sonhos e sim um desejo criado pela sociedade?
Porque eu não me conheço o suficiente para saber o que realmente vale?
Porque errei em deixar de viver o agora para viver o futuro que eu alcançaria?
Porque?

E o homem não soube responder.
E mais ainda: Ao se arrepender, teve que enfrentar, pois não há como voltar atrás e refazer suas escolhas. Escolha de ligar ou não para um amigo no aniversário, escolha de não ir a uma festa por causa da reunião no dia seguinte; escolha de deixar um amor para aceitar um trabalho em outra cidade; escolha de fazer novos amigos que frequentam o espaço onde você precisa ser reconhecido; escolha de não acampar no verão com a velha turma; escolha de não se casar por medo de se prender; escolha de ignorar tudo a sua volta pra seguir em frente...
E na frente, o que tinha lá?

O homem não pôde responder. E então não sentiu-se mais um homem.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O ALTAR DIANTE DO ESPELHO

Porque os professores são tão eleitos primeiros amores de muitas alunas pré-adolescentes? E porque ainda são tão assediados pelas jovens mais espertas?
Porque astros de bandas de rock, magrelos, estranhos e desvairados são tão assediados por homens e mulheres de todas as idades?
Porque as revistas de fofoca que flagram a vida de famosos, vendeM muito mais do que revistas científicas?
Porque nos tornamos fãs fascinados por pessoas que nem ao menos conhecemos como pessoas, mas como sex simbols?
Desde crianças, aos primeiros passos e palavras lidas, somos catequizados, evangelizados, treinados militarmente a admirar e exaltar aqueles que estão expostos em um altar (que nem ao menos têm direito de resposta ao que tanto lhe falamos aos ouvidos).
Os professores, os astros, modelos, as sete maravilhas do mundo, o padre, o pastor, o carinha mais bonito ou a garota mais fashion da Escola estão nesses altares. São traduzidos automaticamente por nosso cérebro condicionado a admirar o que está no altar, como amáveis, apaixonantes, idolatráveis. Além do fato de estarem estes todos em constante exposição diante de nossos olhos, nossa imaginação, nossa esperança e desejo de conquista.
Repare que muitas dessas pessoas estariam totalmente despercebidas se estivessem fora do palco, da telinha ou da telona, fora da sala de aula, do palco. São belezas comuns que se produzem, colocam suas batas jesuíticas em forma de casacos modernos e passam a ser observados com um olhar de cristão dedicado.
Quando pudermos descobrir, em nós, essa percepção, veremos quantos astros interessantes temos à nossa volta, em nossa vida: Um namorado seu tocando violão, sua avó trabalhando em sua incrível macarronada, sua amiga lhe ensinando que não adianta sofrer, que vai passar, que homem é igual biscoito; Você cantando com seus amigos num lual; ou alguém fazendo uma gracinha boba só para te fazer rir não precisam estar em altares para serem admirados, para nos tornarmos loucos por eles.
Não precisam estar expostos para descobrirmos o quanto somos seus fãs, o quanto são admiráveis, passíveis de compra de ingresso e fila de espera com direito a acampamento noturno e gritos cheios de lágrimas dizendo “EU TE AMO!”.
_________
Dedico este texto à minha eterna amiga Thaís Teixeira, a de muitas vidas, a que dividiu comigo a maior parte do meu altar.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

JANELA ABERTA

Tenho me lembrado de você.
Me perco entre lembranças.
Ouço vozes
risos
conversas de nós dois.

Como posso ouvir tantos ruídos
se não há ninguém em volta?

Imagens
Frases
Beijos
Não vão embora
Perturbam minha cabeça
Me acompanham noite adentro
sem me aquecer

Eles me tomam o calor e
deixam meu corpo como se estivesse NU
Mas meu corpo está NU.

De você.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Manifesto pela Joana Fora do Mundo

Joana não encontra o mundo fora de si mesma. Percebe coisas que não podem ser vistas ou sentidas por nós. Ela interfere em seus pensamentos e você é incapaz de conhecer os dela.
Mulher doce, mas incapaz de sentir a vida como você. Está sempre em muitos lugares ao mesmo tempo, está em toda parte e em parte qualquer. Por vezes, Joana se joga nos mares, corre pelos ventos e navega em dilúvios de areia sem perguntar a si mesma como consegue isso, como fazer outra vez, como nunca mais fazer.
Joana tem medo de si mesma porque não enxerga a maldade do mundo. Em seus pensamentos, ela é a vilã, a mocinha, a fada e a bruxa. Joana é o que quer ser e não entende a diferença de ser quem você é ou ser quem gostaria de ser, porque ela é todas elas e nenhuma delas quando, por lágrimas e gritos, suspira sem entender.
Conhecer Joana é um martírio para cada um que se aproxima dela. Pois, perto dela, somos capazes de entender perfeitamente a vida e a sociedade da qual fazemos parte. A reconhecemos, como se passasse um filme em nossas mentes, como se tivéssemos um estalo mental que clareia todos os nossos pensamentos. Mas entender a vida e a sociedade não é tudo o que queremos?
Quando estamos perto de Joana percebemos que não. Pois, ao encontrá-la em seu mundo nos deparamos diante da vida definida fora de nós mesmos, fora dos nossos valores, dos nossos desejos, do nosso "Eu", definidas por "Deus sabe quem".
Se Joana se encontrar, se ela encontrar o mundo fora dela, ela perderá toda a sensibilidade que preenche a sua alma, perderá sua essência, sua ilusão doce e criativa.
Mas olhando de longe e calmamente, sabemos que Joana não encontra o mundo fora de si mesma. Que inveja da Joana!!